A Arte de Voar

Voa a borboleta, o bem-te-vi, até o besouro voa!  E o homem? Sábado de manhã. Entro no carro, sonhando com o programa que me espera na Barra da Tijuca....

Voa a borboleta, o bem-te-vi, até o besouro voa!  E o homem? Sábado de manhã. Entro no carro, sonhando com o programa que me espera na Barra da Tijuca. Faremos mais uma revoada de ultraleve a Angra dos Reis. Vamos passar bem baixinho pela restinga, depois, Itacurã, Jaguanum, contemplando à esquerda as praias sem fim da Ilha da Marambaia. É um paraíso atrás do outro.

Certamente, teremos céu de brigadeiro na rota. Quem me diz é o vento Leste que rebate no paredão da Pedra da Gávea, embalando o sereno voo das asas-deltas e dos parapentes.

Esses meninos, dando uma de gaivotas – pensei, cá embaixo – são a volta por cima que o homem deu num certo capricho da natureza.

Sucede, amigo leitor, que dois terços dos seres vivos são capazes de voar. Pelo menos é o que leio numa revista de vulgarização cientifica.

Voa a borboleta – asa bem bordadas. Voa bem-te-vi, benza-te Deus. Voa a galinha – não sei bem pra quê. Voa a garça branca de neve. O mosquito, bichinho à-toa também voa. O vagalume voa: vaga luz navegando pela noite sua noite intermitente. Voa a andorinha, numa animação de criança. Voa a coruja, rasante maldição da meia-noite. Barata voa. Voa a andorinha, numa animação de criança. Voa a coruja, rasante maldição da meia noite. Barata voa. Voa o morcego, nunca vi asas tão vis. Besouro também voa. Vai aos trancos e barrancos, arrastando sua torpe aerodinâmica, decola aqui, se esborracha adiante. A formiga, quando se cansa de batalhar, crias asas e vai-se embora. Engraçado é que, por inveja, alguém inventou que “Formiga quando quer se perder,  cria asas”. Pois sim.

E o homem? Infelizmente, ao homem, como é publico e notório, foi negado o doce privilégio de voar. Na hora de repartir as sinas, a natureza destinou-o a ficar por aqui, como as vacas, a bater perna por esse vale de lágrimas.

Muito já pagou o homem pela pena de não ter o dom, por exemplo, da gaivota, em boa hora aqui lembrada pelo invejável estilo de voo que lhe permite a dócil geometria de suas asas.

Mas, vamos e venhamos: a natureza não foi assim tão madrasta com o homem. Afinal, se não lhe deu asas ao corpo, deu-lhe asas à imaginação. E é por isso que se vê, hoje, o céu repleto de sonhos. Balões que sobem, paraquedas que descem, asas-delta que planam: jatos, ultraleves, planadores voando pra cima e pra baixo. Ruidosos uns, poéticos outros, vertiginosos alguns, nossos brinquedos vivem dia e noite lá por cima, tirando o sossego dos pássaros e o sono dos anjos da guarda. Volta e meia, o sonho despenca e se espatifa cá na terra, sob o olhar no mínimo desdenhoso dos urubus. Eles sabem muito bem o que é ser tragado pela turbina de um jato que invadiu seu espaço aéreo como se o céu fosse terra de ninguém.

Respeito o devaneio do homem, mas não vejo saída: o ser humano jamais voará por seus próprios meios. O mais que ele consegue é sair a passeio levado pelo ronco das máquinas ou pela boa vontade dos ventos. E isso, positivamente, muito pouco tem a ver com a arte de voar; isso é apenas ser voado, o que deixa o homem numa situação de inferioridade que talvez explique o desprezo com que me olham os urubus quando passo por eles de ultraleve. Quando menino, eu costumava sobrevoar em sonhos a floresta de Xapuri, montado no pescoço de um regador de jardim. Sei que voar não é da índole dos regadores, mas me lembro perfeitamente que o meu tinha asas e voava com o ar gracioso de um albatroz.

Tenho centenas de horas de voo com meu ultraleve. Encanta-me sentir o perfume dos ventos, a castidade das nuvens, o alento das térmicas. Confesso, porém, que não chega a ser a plena felicidade. Voar como um passarinho é que deve ser mesmo a glória.

Cheio de fé, esperando um dia poder voa instintivamente, em total abandono, encerro a crônica com este pequeno anuncio: Homem de meia idade troca duas pernas em bom estado de conservação por um par de asas bem voadas.

Texto de Armando Nogueira

“Esta crônica é uma homenagem da SAB a um dos maiores incentivadores da nobre arte de voar, o poeta e jornalista Armando Nogueira”

 

 

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