Os tempos de voo no Garimpo

OS PILOTOS DESTA NOVA GERAÇÃO SEMPRE NOS PERGUNTAM COMO ERA VOAR NO GARIMPO, EU DIRIA QUE A DIFERENÇA JÁ COMEÇAVA NA DECOLAGEM, EM CASO DE PANE NUNCA POUSE EM...

OS PILOTOS DESTA NOVA GERAÇÃO SEMPRE NOS PERGUNTAM COMO ERA VOAR NO GARIMPO, EU DIRIA QUE A DIFERENÇA JÁ COMEÇAVA NA DECOLAGEM, EM CASO DE PANE NUNCA POUSE EM FRENTE.

Jogue no topo das árvores nas laterais. Pousar em frente caso ocorra uma pane na decolagem, conforme nos ensinaram nas escolas de aviação, é procedimento correto. Cada pista tem sua peculiaridade e esta é uma regra geral. No garimpo, no entanto, se usado ao pé da letra, nos causará sérios danos ou até a morte. O pouso em frente é, na maioria das vezes, fatal. Um desvio de 45º é o mais correto em 99% das pistas localizadas no meio do mato.

É impressionante a atenção que o piloto tem de jogar o avião em pane no desmatamento aberto na área de aproximação, o que seria o reflexo condicionado de um piloto normal e à primeira vista o mais razoável a ser feito. A mata derrubada cede lugar à Embaúba, uma vegetação de caule macio e folhas enormes que dá o aspecto de um tapete, fazendo uma perfeita armadilha para incautos.

A “pane na decolagem” é uma coisa muito feia. Usam-na até para definir o grau de feiúra de uma mulher: “É mais feia do que pane na decolagem”. O comandante Land diz que namorar garota “de menor” é mais perigoso que uma pane destas. O piloto sempre estará completamente “vendido”, pois estará a baixa altura e com baixa velocidade. Como o diabo gosta. Além disso, muitas vezes desconcentrado, pois poucos fazem mentalmente o “briefing” da decolagem, item obrigatório em qualquer bom ”check-list”. A doutrina que existe no voo militar  me ensinou a faze-lo e lembro bem da época em que chegaram o F-5 ao Brasil, em 1975, quando por vezes voávamos no mesmo dia um F-5B e logo após um F-5E. O sistema de ejeção das duas aeronaves eram diferentes (no E o punho de comando era na frente do assento ou sobre a cabeça e no B era nos braços da cadeira de ejeção), além de outras diferenças menos importantes numa pane de decolagem.

Em posição para decolagem eu sempre mentalizava qual o tipo de aeronave na qual estava e qual era o procedimento correto para a mesma. Graças a Deus e à boa manutenção dos esquadrões de caça, nunca necessitei utiliza-los.

Voltando ao garimpo, lembro de um piloto, ex-sargento controlador de voo da FAB que voava uma carioquinha. Estava há um mês operando com a bomba de combustível elétrica ligada (aquela que só deve ser ligada nas decolagens, pousos e em casos de pane da bomba mecânica). Havia quebrado a bomba mecânica mas ele “não podia parar o avião para consertá-la”.

Numa decolagem lá no Km 0 a bomba elétrica pifou e o motor parou. Ele jogou no desmatamento. O tronco de castanheiro que ele encontrou por baixo da Embaúba tinha uns dois metros de diâmetro. A carga, que era de carne e não estava amarrada, imprensou-o contra o painel.

Pousar no mato, sobre as copas das árvores é muito mais macio do que encarar a sua base ou o seu tronco deitado. Nesta hora não tem muita escolha. Qualquer copa é melhor do que o desmatamento. Quando há escolha, pode-se optar por uma copa da castanheira ou pelo açaizal, se houver chance. O pouso na castanheira tem o inconveniente de ser feito a 50/80 metros de altura e eu sempre esquecia a corda. Contam uma história do piloto que fez tudo certo, inclusive tinha a corda. Após conseguir placar o C206 na copa, desceu do avião, amarrou a corda e começou a descer por ela. Quando chegou à sua, constatou que ainda tinha mais de 30 metros de árvore até o chão.

 

 

 

 

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ColunistasGustavo Albrecht
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