Como nosso cérebro reage diante do voo ?

O amor e a sede do conhecimento eram mais fortes do que o medo de voar, segundo Otto Lillenthal, considerado o pai dos planadores no final do século XIX. ...

O amor e a sede do conhecimento eram mais fortes do que o medo de voar, segundo Otto Lillenthal, considerado o pai dos planadores no final do século XIX.  Mas Otto faleceu em um acidente com seu planador vitimado por uma forte rajada de vento embora tenha sido alertado pelo seu assistente, sua resposta foi: Vou fazer esse último voo ! Comentou avistando a virada do tempo.

 

Por Ruy Marra

Quais estruturas fisiológicas estão envolvidas para a prática do voo ?

E como a performance pode ser influenciada bem como nos processos decisórios?

Voei de asa delta e parapente com mais de 30.000 pessoas nos últimos 35 anos. E eu morria de medo de altura e meu curso, provavelmente, deve ter sido o mais longo e desastroso  no planeta . Geralmente um curso de asa tem como duração entre 1 mês a três meses.  Meus mestres Carlos Niemeyer e Paul Gaiser me acompanharam por quase dois anos diariamente das 5hrs da manha as 8 hrs e quase desistiram de me formar.

Com o tempo, depois de formado, voava em dupla com meus amigos, depois os amigos dos amigos e dessa forma fui sendo atraído para essa atividade em função da alegria e felicidade daqueles que carimbavam seu passaporte do renascimento na rampa da Pedra Bonita, localizada no Parque Nacional da Tijuca ( maior floresta urbana do mundo) dentro do Rio de Janeiro.

Mas na hora da decolagem , seja de asa, balão , avião ou outra forma de tocar os céus, nosso corpo precisa se adaptar para uma atividade recente em nossa espécie, voar e de preferência  com segurança.

Somos dotados de um sensor cerebral de ameaça .

Como um disjuntor de eletricidade , que quando sobrecarregado pelo sentimento de impotência diante de uma ameaça conduz o estimulo para areas mais primitivas do cérebro e podemos ate congelar ou entrar em dissociacao muscular ocasionando perda de performance na execucao do movimento .

Em formato de amêndoa , a amígdala cerebral vem sendo estudada há anos por pesquisadores. Ela é conectada as diferentes fontes de informações: hipocampo (memórias e contextos ), tálamo sensorial(avaliação do estimulo ), córtex sensorial (objetos), córtex nasal(memórias) e medo (reações e experiências). Mais recentemente uma outra estrutura , a insula, faz a mediação da amígdala com o cérebro racional, foi identificada como uma tradutora de sons, cheiros e sabores em sentimentos e emoções como culpa , empatia , arrependimento ou orgulho.

A amígdala associada a outras estruturas responsivas funcionam como um detector de ameaças. Ela assegurou a sobrevivência da humanidade ao longo de milhares de anos .

Na época das cavernas, quando saíamos do nosso abrigo natural em busca do  seu alimento, em uma floresta repleta de predadores e perigos avistamos uma mangueira com algumas frutas maduras derramadas ao pé da arvore. Nos esgueiramos pela mata e quase sem respirar, avaliando o ambiente em 360 graus, repetidas vezes. Como vocês pensam que  iremos degustar aquelas mangas depois de andar algumas horas esquivando-se de animais ferozes?

Relaxados, sentados tranquilamente, desfrutando daquele sol acolhedor ou em estado de alerta, prontos para correr e escapar de alguma provável ameaça?

Esse estado de prontidão constante pode levar a alterações morfológicas nas estruturas cerebrais. Ou seja, experiencias no começo da vida podem influenciar no comportamento na vida adulta.

Segundo o modelo do circuito cerebral de Joseph Ledoux, existem  dois caminhos traçados para respostas as ameaças no cérebro, tendo a amígdala possivelmente junto com a insula sentido se poderão lidar com o perigo percebido. Caso seja disparado  um alerta vermelho, esse estimulo é enviado para áreas mais primitivas do cérebro em 12 milésimos de segundos podendo diminuir a eficiência da resposta racional ocasionando dissociação muscular ou mesmo congelamento. E um outro caminho percorrido em 24 milésimos de segundo onde sentimentos de competência, empatia, planejamento e execução de movimentos são ativados nos lobos frontais, gânglios da base, conhecido como os lobos dos anjos.

E como o estresse pode influenciar nossa fisiologia para voar ?

O estresse é discutido como originário fisiologicamente de dois mecanismos: via sistema hipotálamo-pituitária-adrenocortical (HPA) e via sistema simpático-adrenomedular, sendo o primeiro regulado via cortisol pelo córtex da adrenal e o segundo através da liberação de adrenalina nas células cromafins e na inervação simpática das vísceras (Sapolsky, 1992; Bartolomucci et al., 2005), que tem relação com a baixa variabilidade da frequência cardíaca. Os mecanismos envolvidos nesta correlação entre aumento de risco cardiovascular e fatores psicossociais ainda não está esclarecida, embora a discussão na literatura científica não seja recente; entretanto, propõe-se que a diminuição da variabilidade da frequência cardíaca esteja envolvida com esta correlação devido ao distúrbio do equilíbrio simpatovagal (Hosten et al., 1999).

Cada um de nós pilotos, desenvolveu estratégias adaptativas para o voo com segurança e trazer o pensamento sistêmico para um aperfeiçoamento constante das nossas capacidades:  cognitiva , física e emocional torna-se fundamental para desfrutar do voo com admiração e não em um estado de prontidão sem foco que pode influenciar negativamente nosso processo decisório nessa jornada aérea.

 

Ruy Marra , Mestrado em Medicina na UFRJ com foco em Neurocardiologia  Pós graduação em Ciência Corpo/Mente – Biopsicologia . Formação em Biofeedback cardiorrespiratório. Atualmente integra o grupo de pesquisa em Neuroimagem e psicofisiologia liderado por Prof. Dr. Tiago Arruda Sanchez UFRJ Medicina. Tem experiência na área de Fisiologia, com ênfase em Neurofisiologia e variabilidade da frequência cardíaca . Com enfoque em Neurociência do comportamento, regulação das emoções , ansiedade , depressão , pré hipertensão, hipertensão . Atualmente está desenvolvendo, criando cursos a baixo custo on-line de regulação das emoções www.respirecomciencia.com.br, games eletrônicos para regulação das emoções e prevenção hipertensão app Timetomind Autor dos livros Decolando para Felicidade , Muito Além do Voo – bem estar e neurotecnologia , Aprendendo a Respirar ,  Plataforma de treinamento para gestão do estresse á distancia – www,respirecomciencia.com.br, palestrante TED Talent Search e TED ex.

Foi duas vezes campeão brasileiro de parapente, recordista sul americano de distância livre em parapente e já voou com mais de 30.000 passageiros de asa delta

 

 

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Medicina Aeroespacial
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