Os amigos do meu ultraleve

Nas minhas andanças de Ultraleve, tenho feito boas amizades ai por cima. Tornei-me confidente de alguns ventos, de certas nuvens baixas, dos urubus e dos anjos da guarda. Com...

Nas minhas andanças de Ultraleve, tenho feito boas amizades ai por cima. Tornei-me confidente de alguns ventos, de certas nuvens baixas, dos urubus e dos anjos da guarda. Com alguns, tenho amáveis alianças; por outros, tenho grande afeição e, de todos aprendo sempre um pouco mais sobre a vida que sopra entre o céu e a terra.

A malandragem dos urubus devo a dica de saber tirar partido do vento Leste que rebate no morro. O urubu sobrevoa a montanha e é levado céu acima pela corrente de vento. A outra magica do urubu é se meter numa bolha de ar quente, a chamada térmica das tardes de verão. E ele fica por lá flanando, horas a fio, pra lá e pra cá, sem precisar bater as asas uma única vez. No caso do ultraleve o truque é reduzir o motor à sua marcha mais lenta e tratar de curtir um voo silencioso, lado a lado com os urubus.

Sempre que emparelho com um deles, lembro me de Augusto dos Anjos que desabafou, um dia, num verso de desalento: “Um urubu pousou na minha sorte”. Pronto; desde então, o urubu passou a ser no Brasil símbolo de infelicidade. Injustiça do poeta, certamente, porque não conheço neste mundo pássaro de voo mais contente. O urubu voa bonito e tem outra coisa boa: não faz firulas como a andorinha que, por sinal, devia ser menos trefega e procurar imitar o voo sereno e elegante do seu irmão de cor.

Outra camaradagem que fiz nas asas do meu ultraleve foi com ventos. Menos o Terral que, além de ser atrevido demais para o meu gosto, acorda sempre com os galos e parece que acabou de sair de um forno solar. É morno e turbulento. Nosso gênios não combinam. Bom de trato mesmo é o Leste. Por mais veemente que seja, ele é sempre cordial e traz na pele fresca a doçura da praia. É o vento alegre das pipas. Parecido com ele, em frescor e brandura, é o vento Sul que costuma trazer boas notícias do mar. Tem lá seus caprichos e é capaz de açoitar. Mas traz de berço, como o Leste, a sina poética de ser, com muito orgulho, brisa ligeira.

Já não se pode falar assim do Sudoeste, vento guerreiro que encrespa oceanos e intimida pescador. Quando, porém, chega de leve – o que é muito raro – o Sudeste tem um ar de viração que me agrada muito.

Inconstantes, embora, é certo que os ventos mais nobres dividem com os anjos a incumbência celestial de trazer a terra um sopro divino. Nós, voadores, recebemos dos anjos e dos ventos, providenciais avisos sobre a chegada de mau tempo e de outras dores de cabeça que volta e meia atormentam os caminhos do céu.

As nuvens, por sua vez, enfeitam a minha aventura ultraleve com a magia de serem harmoniosas esculturas móbiles vagando pelo espaço. Num relance, um dragão de escuro se transforma em doce namorada para  logo depois, filtrar a luz da tarde, recortando no profundo azul do céu, efêmero vitrais do sol poente.

Sei muito pouco, ainda dos ventos que embalam meus voos. Saberia muito mais se tivesse participado de um encontro na várzea do Capibaribe. Alí, em admirável poema de Joaquim Cardozo reuniram-se em congresso histórico, num certo mês de agosto, todos os ventos do mundo. Estavam presentes o Harmatã, o Minuano, e os ventos Banzeiros, o Garbino, o Cansim, o Simum, o Terral e outros não menos ilustres. Conta o poeta que, terminando a assembleia, o vento nordeste, ultimo e deixar a várzea.

“Cortou uns talos de chuva
Com eles fez uma flauta
E se foi, tocando e dançando”.

Texto de Armando Nogueira

“Esta crônica é uma homenagem da SAB, ao um dos maiores incentivadores da nobre arte de voar, o poeta e jornalista Armando Nogueira.”

 

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