Minha memorável descida “X-Ray”

Nos idos de 1981 voávamos o Neiva T-25 como instrutores de voo recém-chegados à academia da Força Aérea. O Neiva T-25 Universal, substituíra o jato da instituição o Cessna...
Ilustração Ricardo Beccari

Por Cmte. Ivan Siqueira “Chumbo”
Ilustração Ricardo Beccari

Nos idos de 1981 voávamos o Neiva T-25 como instrutores de voo recém-chegados à academia da Força Aérea. O Neiva T-25 Universal, substituíra o jato da instituição o Cessna T-37, o T-25 era uma excelente maquina para se dar instrução, dócil de comandos, não apresentava vícios ou tendências, saía do parafuso sozinho, era só largar os comandos. Impulsionado por um motor Lycoming 300 HP IO-540-K1D5, decolava e subia bem.

Voávamos lado a lado com paraquedas de assento, que substituía a almofada de baixo.
A capota abria para traz num trilho de correr e era travada e destravada através de uma alavanca superior entre as duas cabeças dos pilotos. Em rota, puxando para trás essa alavanca, cerca de 1cm, abríamos uma pequena brecha onde entrava uma brisa refrescante nos dias quentes. Na maioria do tempo, voávamos em voo local seguindo uma serie de fases da instrução: voo básico (pré-solo), manobras avançadas, acrobacias, voo por instrumentos, formatura de dois e quatro aviões e finalmente viagens pelo Brasil. Esse programa se estendia de Março a Setembro, seguindo as fases numa sequencia natural; assim ficávamos a maior parte do tempo voando “local” dentro da enorme área da AFA.

Com isso, os instrutores para se manter atualizados com o voo IFR em viagens, tinham um programa no qual viajavam pelo Brasil mais ou menos a cada dois meses, era a escala mais concorrida e todos queriam ir para o nordeste tomar uma cerveja num dia intermediário de folga.

Saíamos de Pirassununga-SP, normalmente nas sextas-feiras após o horário do almoço, fazíamos a primeira descida IFR no Rio de Janeiro e em seguida partíamos para outras para Caravelas e Ilhéus no território baiano; sem faltar a capital baiana Salvador, íamos também a Maceió em Alagoas, Recife Pernambuco e finalmente Natal no Rio Grande do Norte ou Fortaleza no Ceará.

Esquadrilha Neiva T-25 – Foto Ricardo Beccari

Chegávamos por volta da meia noite, quando tudo dava certo no percurso. Tínhamos o sábado livre e regressávamos no domingo. Na segunda já estávamos prontos para o voo da madrugada na academia. Era puxado, mas ninguém reclamava. E assim fazíamos nossas “marcas IFR” voando nas condições mais adversas diurnas ou noturna, chuva ou com sol, operando os básicos instrumentos do T-25, sem piloto automático, radar, GPS, DME enfim, o avião era restrito no que diz respeito aos instrumentos de voo, mas atendia ao mínimo previsto na regulamentação.

Tínhamos dois horizontes artificiais, um ADF, um VOR e um rádio VHF que só falava perto da estação, E assim, atravessávamos o Brasil, muitas vezes a noite voando “na mão” com o rádio fazendo barulho e muitas vezes com a perna molhada devido à vedação da emenda da capota com os para-brisas, da qual já comentei no começo onde a gente abria para entrar um ventinho. Mas mesmo com essas dificuldades, nos matávamos por uma viagem dessas.

Foi assim que um dia, eu e o meu amigo “Willie” convencemos o “escalante” a nos colocar juntos numa viagem para Natal (RN). Havíamos sido os dois instrutores com mais horas de voo nos últimos dois meses e no voo local.

Chamávamos de “pau de sebo” a concorrência dentre os pilotos para fazer mais horas de voo, e nós dois brigávamos para ser o “cabeça do pau de sebo”. Bastava eu ir ao dentista e perder um voo e não conseguiria mais alcançar o Willie e as vezes até o Borin. Era muito difícil, esses caras voavam muito. Diante da prova incontestável o escalante cedeu e nós ganhamos a viagem.

Maravilha, sexta acordamos cedo, fizemos nosso voo local e fomos almoçar cedo para adiantarmos a viagem.

Na saída do Rancho (restaurante militar) encontramos o escalante que nos advertiu: – Vocês só vão depois da palestra! Que palestra pô?

Foi ai que descobrimos que haveria uma palestra de “segurança de voo”, logo após o almoço e tivemos que esperar para assisti-la.

Eram onze horas e como “caipira” já tínhamos almoçado. Ficamos praguejando ao esperar até as 13h30 para o inicio do programa. Tínhamos deixado o avião pronto, com as malas dentro, abastecido, plano de voo feito e até a meteorologia já tínhamos checado: tudo “cavok”, que significa tempo bom, céu azul!

No final, lá pelas 16h, quando o FDP do palestrante era homenageado, saímos correndo para o hangar, entramos no avião, fizemos um “check-list” corrido e mal feito, enfim partimos para o Rio de Janeiro, a nossa primeira escala.

Como o tempo estava totalmente aberto na hora do almoço, não olhamos mais a previsão na hora de sair devido a nossa pressa. Só pensávamos em chegar em Natal a tempo de tomar uma cerveja gelada.

Ao recolhermos nosso trem de pouso, após a decolagem, o “controle academia” nos perguntou se estávamos cientes das condições meteorológicas.

– Com certeza! Estamos cientes das condições meteorológicas.

Mas só tínhamos olhado a três horas atrás. Sentíamos livres, como escravos fujões a correr no mato em direção a liberdade. Até o ar era mais leve.

Mal sabíamos o que nos aguardava, subimos conforme o nosso plano de voo em direção à São José dos Campos, subimos para o nível 110 (11.000 pés) e o controle SP nos perguntou se estamos cientes da meteorologia?

– “Certamente”, ciente das condições. Foi nossa resposta novamente.

Pô, com aquele céu tão azul era impossível que não estivesse bom…

Mas como os “deuses” protegem os inocentes, nós seguimos felizes furando uns “cúmulos” de vez em quando. Aos poucos os “cúmulos” foram aumentando, fazendo uma fila a nossa frente, bem na nossa rota.

Próximos de Paraty, já avistávamos um paredão preto a nossa frente. O “Willie” estava no comando e eu era o seu copiloto nessa perna. Olhei pra ele e perguntei:

– … e aí Joseh? (Willie)

– O que, o que você acha?…. desse paredão…

Ele me olhou nos olhos e respondeu:

– Você é um homem ou um “pé de alface”? Neste momento pensei comigo…

– Que se “foda”!

E assim seguimos na proa de Santa Cruz (RJ), descendo. Na parede cinza escuro, alguns relâmpagos iluminaram o caminho, como se estivessem nos dando “boas vindas”.

Macho que é Macho não pergunta uma segunda vez e eu apertei bem os cintos, separei as vinte e poucas descidas IFR do Rio de Janeiro e as coloquei em ordem na prancheta de perna.

Dez milhas depois estávamos no “CB” (significa Cumulus Nimbus: que é o mais temido tipo de nuvem, costuma causar fortes rajadas de vento e chuvas intensas). A chuva caia como se uma piscina tivesse sido derramada sobre nós, o avião pulava, virava, torcia e o Willie brigava com o horizonte artificial, tentando manter a aeronave nivelada, os flashes agora acendiam em todas as direções. A única certeza que eu tinha era que o T-25 não iria quebrar, pois o avião é muito forte. Como copiloto, eu fazia as comunicações, os procedimentos e a preparação da cabine para a descida, mas mal conseguia ler dentro daquela turbulência.

O rádio VHF fazia mais barulho que uma corrida de motocross e eu tentava falar com o controle. Os aviões da categoria comercial começaram a falar rápido, havia uma forte tensão no ar na voz dos pilotos, em poucas palavras, a situação estava preta. Passamos Santa Cruz, consegui falar com o controle e iniciamos novamente a nossa descida para 5.000 FT a proa de “AFONSOS” e o controle então me orientou para preparar a descida “X-RAY”.

Devido aos solavancos, não conseguia ler o nome das descidas, até que achei o X-Ray e a mostrei ao Willie. Comecei a ler na carta a sequencia a ser seguida na descida e o Willie brigando com os comandos me disse:

– não consigo ler nada na descida.

Eu coloquei na frente dele, mas devido aos pulos, minha mão mexia e a descida balançava.
Aí então ele repetiu novamente:

– não consigo nem ler a proa do afastamento.

Então tive uma ideia genial, vou abrir um pouco a capota e prender a descida na fresta em frente a cara do Willie. E falei para ele:

– Bloqueie Afonsos e siga na proa em frente descendo até atingirmos o QDR 134° de “Caxias”, então inicie curva a direita aproando “ILHA”.

Então, comecei a abrir o canopi e após um ½ cm aberto, aproximei a descida X-Ray para então fecha-lo prendendo a carta.

Ao aproximar o “X-Ray” da fresta, o vácuo chupou a descida e ela sumiu da minha mão, bem na frende dos olhos do Willie. E ele gritou! – FDP, FDP, FDP! E agora???

Eu ainda estava pasmo como um cachorro que caiu de um caminhão de mudança, mas falei:

– Porra, a descida X-Ray caiu! E o Willie repetiu: – FDP, FDP, FDP! Então falei:

– Não esquenta a cabeça, eu falo com o controle e ele tem que nos dar as orientações lendo o perfil da carta.

Mas o caos estava gerado, todos falavam ao mesmo tempo, pilotos da área comercial, torre de controle, e o controlador já aparentava estar bem nervoso. Quando eu consegui enfim falar com o controle, pedi orientações para seguir a descida “X-Ray” e ele Super satisfeito naquela confusão, me perguntou porquê eu não tinha uma cópia a bordo? Foi quando respondi que a descida havia caído.

Foi uma vaia generalizada na frequência do rádio até que alguém falou:

– “Avião furado!”

O controlador deu um “basta” na confusão e começou a ler a sequência de acordo com a nossa posição. Assim continuamos a nossa descida e no final ao passar pelo ultimo ponto “Paiol”, avistamos em meio a chuva e nevoa a pista do “Santos Dumont”.

– Que maravilha! Foi a primeira coisa que Willie disse!

Acho que nessa hora o Willie respirou e conseguiu fazer um pouso “manteiga” no meio das poças d’água da pista.

O avião T-25 não tem limpador de para-brisas e para taxiar tivemos de abrir a capota e botar a cabeça para fora para poder enxergar a faixa amarela da pista de táxi. Tomamos um banho, até que paramos no pátio. Ficamos uma meia hora dentro da cabine toda embaçada esperando a chuva passar e a Kombi da FAB chegar.

Nunca, na minha vida, andar de Kombi foi tão bom!

 

 

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Um Comentário
  • Ricardo Beccari
    11 setembro 2018 at 17:41

    Fantástica a história do comandante Siqueira o amigo “Chumbo”

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