AVIÕES DE MADEIRA, POR QUE NÃO?

A madeira é um produto da natureza e normalmente usado em seu estado natural. Depois de devidamente seca, só precisa ser cortada. É o único material aeronáutico não fabricado...

A madeira é um produto da natureza e normalmente usado em seu estado natural. Depois de devidamente seca, só precisa ser cortada. É o único material aeronáutico não fabricado pelo homem. Foi o primeiro e continua firme. Há mais de 100 projetos e kits disponíveis para construção em madeira.

Texto de Ricardo Cavallari 

Principais vantagens: facilmente encontrável, versátil, maleável e dócil; manuseio e utilização simples, resistente e durável.

Principais desvantagens: inadequado para a produção em massa por requerer muito trabalho manual e, o mais importante, não pode ter sua resistência adequadamente checada.

E por que? Porque sua resistência depende do grau de umidade, da forma como foi armazenada, ajustada e colada.

Depende até da parte da arvore onde foi retirada: a parte central é mais resistente e menos flexível, ao contrario da parte externa, a preferida para o uso aeronáutico.

Observe o desenho 1 e note que uma mesma tora será supostamente desmembrada em pranchas e posteriormente transformada em longarinas.

A letra “A” mostra uma prancha com veios horizontais ( os anéis anuais da arvore) e das três é a mais adequada e

Ilustração de Mauro José de Godoy Moreira

recomendada para longarinas.

A letra “B”, com veios a 45 graus ainda pode ser usada. Limite máximo de inclinação!

A letra “C”, por sua vez, ficou com os veios verticais e não serve para longarinas. Inadequada para uso.

Claro que agora ficou todo mundo curioso… vou explicar:

A madeira incha com a absorção de umidade e encolhe quando seca, sempre tangenciando os anéis anuais, os veios.

Vamos voltar à “A”. Caso encolhesse, diminuiria a espessura da longarina mas alteraria muito pouco sua altura ou comprimento.

Fazendo a mesma comparação com “C”, poderemos concluir que o encolhimento faria com que a longarina perdesse altura, ficando, portanto, menos resistente.

Há outra consideração importante: o esforço.

As longarinas são como as vigas de um telhado, seu maior “trabalho”, o peso que carregam, é predominantemente no sentido de sua altura. Submetivas a um esforço excessivo, as longarinas “A” e “B” tenderiam a comprimir os anéis. Já a longarina “C” tenderia a separá-los, causando o que se costuma chamar de “grave falha estrutural”.

PRESERVAÇÃO DA MADEIRA

 

Assim como outros materiais, a madeira também está sujeita a deterioração e precisa ser corretamente protegida.

 

MOTIVOS PARA DETERIORAÇÃO

 

  1. a) alternância entre umedecer e secar pode levar ao apodrecimento;
  2. b) falta de ventilação;
  3. c) ação de fungos ou insetos (leia-se CUPIM);
  4. d) acúmulo de água.

 

Formas mais simples de evitar a deterioração:

Madeira seca, drenos, janelas de inspeção, cupinicida, verniz e cola adequados.

A maior evidencia da presença de água é a descoloração da madeira.

Por esta razão é que a madeira deve ser envernizada e não pintada!

Quando houver revestimento em contra-placado (quase sempre), atentar para o fato de que o compensado pode estar com boa aparência externa e o interior com algum tipo de deterioração.

Se houver qualquer indicio da presença de água na estrutura, inspecione com rigor e desmonte se necessário.

Estruturas aeronáuticas são leves e não há grande excesso de material disponível para deterioração sem que se comprometa a resistência do conjunto.

A QUESTÃO DA UMIDADE

A madeira absorve e perde umidade através do ar, até que haja um equilíbrio entre a sua e a umidade do ar.

Quanto? Entre 10 e 15% do peso da madeira seca.

Quanto mais seca, mais resistente. O famoso “spruce” americano fica 4% mais forte a cada 1% que perde de umidade, no quesito flexão. O módulo de ruptura cresce 55% a umidade zero e 80% na compressão máxima.

Reverso: a 27% de umidade a resistência cai para menos da metade!

O freijó – “cordia goeldiana huber” – é encontrada com mais frequência nos Estados do Pará, Tocantins, Acre, Rondônia e Mato Grosso. É um pouco mais pesado e mais resistente que o “spruce”, a quem substitui tranquilamente.

A diferença de peso e resistência não é justificativa para que refaçam os cálculos estruturais ou modificações nas dimensões originais do projeto.

Aliás, não tente fazer a conversão de polegada para milímetro. Não vale a pena e é arriscado. Aprenda a ler e pensar em polegada! Afinal de contas um dos objetivos da construção amadora é a educação…

 

ADESIVOS E COLAGENS

Há várias colas disponíveis no mercado. Eu costumo usar epóxi – Araldite normal (embalagem preta e azul), não use a de 5 minutos que é menos resistente e seca muito rapidamente. Há embalagens de quarto de galão (1 litro) e é misturada em proporções iguais. Outra vantagem das colas epóxi é que  (quase) não sofrem retração após a secagem, não precisam ficar pressionadas durante o processo de cura e podem “encher” algum pequeno espaço entre as partes a serem coladas. Algumas regras básicas para todas as colagens:

  1. a) não existe a cola perfeita, todas tem vantagens e desvantagens;
  2. b) siga sempre e atentamente as instruções do fabricante. Misture as partes corretamente;
  3. c) veja a data de validade do produto e o tempo de manuseio;
  4. d) não prepare grandes quantidades de cola de cada vez;
  5. e) faça corpos de prova com restos de madeira para testar as várias colagens e identifique os testes por data e o que foi colado naquela remessa;
  6. f) preço;
  7. g) fique atento à possibilidade de reação alérgica pelo contato ou inalação;
  8. h) cuidado com a temperatura e principalmente a umidade;
  9. i) não arranhe a madeira na esperança de melhorar sua aderência. A cola acaba aderindo às fibras soltas;
  10. j) quando as instruções especificam temperatura mínima, se referem à temperatura da peça a ser colada;
  11. k) proteja os olhos, não cheire cola, trabalhe em local arejado (ou ventilado), use luvas cirúrgicas ou de lanchonete e/ou lave a mão com frequência. Mão suja espalha sujeira.
  12. l) não envernizar as superfícies a serem coladas. O verniz “plastifica” a superfície, dificultando a boa aderência da cola;
  13. m) as partes a serem coladas devem estar limpas e ajustadas (sem folga). Procure manter um bom padrão de qualidade durante toda a construção. A folga admissível é de 1/32” ou cerca de 7 décimos e meio de milimetro;
  14. n) a principio o epóxi não precisa ser pressionado para colar, mas sim para tirar o excesso de cola. Um dos indicativos de uma boa colagem é a linha de excesso que se forma nos pontos de contato. É a garantia de que não faltou cola em nenhum ponto. Muita cola é desperdício, pesa e enfeia. Pouca cola não gruda!

Cultura inútil:

Observe o desenho 2 e note que são 3 modelos de longarina de madeira, com medidas e construções diferentes.

Ilustração de Mauro José de Godoy Moreira

Agora, a surpresa:

Todas tem a mesma resistência!

 

 

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