Quebrando recordes

"É recorde mundial!!! Quem me conhece de verdade sabe o TANTO que sonhei com isso. Sonho de uma vida! Quando comecei a voar em 2010, descobrindo o cross country,...

“É recorde mundial!!! Quem me conhece de verdade sabe o TANTO que sonhei com isso. Sonho de uma vida! Quando comecei a voar em 2010, descobrindo o cross country, conheci a Kamira no pwc que teve na minha cidade, Poços de Caldas.

 

 

Texto e fotos – Marcella Uchoa

Vê-la contando sobre os voos me inspirou muito e pensei: “nossa um dia quero ser a mulher que fez o maior voo do mundo”. Lembro-me também que falava isso pros outros e me achavam louca, a menina que mal sabia voar e queria ser recordista mundial. Enfim, nunca escutem as energias negativas e sempre acreditem nos seus sonhos, por mais loucos e impossíveis que eles pareçam. Na época estava na faculdade, e desde que terminei o mestrado tenho me dedicado praticamente exclusivamente a realizar esse sonho. Muito treino, dedicação, determinação, e paciência para lidar com as frustrações. Mas nunca chegaria aqui sozinha.

Pra quem assistiu “Ciclos” mil vezes (eu sabia até as falas haha), fazer parte dessa equipe com certeza foi um sonho realizado. Só tenho agradecer por terem acreditado em mim, por me convidarem a ser parte da equipe, por terem me dado a oportunidade de viver meu sonho. Muito obrigada a todos da equipe (Rafael Saladini, Marcelo Prieto, Frank Brown e Samuel Nascimento) pelos ensinamentos compartilhados e principalmente ao Samuka e Rafa pela super parceria em voo. Muito obrigada à Nani e Dió pelo melhor resgate do mundo!

No total foram 3 recordes mundiais em um dia!

– 410.72km distância livre feminino

– 377km Goal declarado feminino

– 414.5km distância livre passando por 3 pontos OLC

O voo do recorde foi um dos voos mais difíceis da minha vida. Fui a última a ser rebocada, voei os primeiros kms sozinha, depois consegui conectar com o Frank e Ceceu e mais pra frente conectamos com Samuka e Rafa.

Estava muito turbulento, não foi nada fácil pilotar meu parapente, fui conseguir comer só depois das 14h. Acho que não voei muito bem, sempre subo bem, mas nesse dia não conseguia muito bem. Depois de Quixeramobim ficou azul de novo e o voo todo tinha uma inversão térmica. Ficamos baixo várias vezes. E quando achei que já estava mais fraco (já até pensava em soltar o lastro) pegamos uma térmica de 8m/s no rotor que subimos igual papel.

Porém, o final foi extremamente difícil, muito fraco, azul e fomos parando em qualquer bolinha que encontrávamos pelo caminho. Foi muito difícil manter a concentração depois de bater o recorde mundial feminino de Goal declarado no km 377. Mas engoli a comemoração e me concentrei no sonho principal. Faltava 10km pro recorde, eu estava a 1000m do chão. Teoricamente já sabia que ia rolar, mas foram tantos “quase”, que só acreditei mesmo quando vi o 403 aparecer na tela do GPS. Até lá, eu nem respirava pra não perder planeio haha.

E ainda rendeu mais 7km, totalizando 410.72km. Decolando em Assu no Rio Grande do Norte, rasgando o sertãozão inteiro e pousando perto de Tamboril no Ceará. Foram 9h48 de voo. Que voo! Se fosse fácil não seria recorde, e ainda ser num dia ruim e difícil deu um gostinho ainda melhor. Como disse o ano passado, não existe maior conexão com a natureza do que voar o dia inteiro. Sem motor, sem nada, só vc, seu parapente e o barulho do vento. Decolar com o sol nas costas e terminar o voo com um planeio final em direção ao melhor por do sol do mundo, no melhor camarote. Ali, é onde vc tem certeza q todo o sofrimento vale a pena. E ainda com a emoção de ter batido três recordes mundiais. É, com certeza, foi o melhor dia da minha vida! Sonho realizado.

O que dizer sobre o aprendizado até aqui? Nunca desistir, sempre acreditar em seus sonhos e fazer o que for preciso para perseguir e lutar por eles. A jornada nunca é fácil, mas vivê-la a cada momento torna-a mais agradável. Porque mesmo que o ponto final seja onde você quer estar, o caminho longo e difícil até chegar lá é o que realmente importa. Quero dizer, até mesmo os vôos errados, os dias que eu pousei no meio do nada, tinha que andar muito com 30kg nas minhas costas, na hora mais quente do dia, eles são importantes. Para nos mostrar o que fizemos de errado e como trabalhar para melhorar no dia seguinte. Ou os dias em que você pousa perto de uma casa com a melhor família que oferece a você até o que eles não têm para que você se sinta confortável. Isso nos faz pensar se estamos sendo tão amigáveis ​​com pessoas que não conhecemos em nossa vida diária. Para mim, voar no sertão é muito mais do que apenas perseguir recordes mundiais, é aprender com as melhores pessoas do mundo sobre como cuidar uns dos outros, é uma experiência de vida, onde você cresce não apenas como piloto mas principalmente como ser humano”.

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