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Ao longo dos anos, tenho tido a oportunidade de voar muitos aviões antigos e clássicos. Não sei bem porque, mas sempre tive uma atração muito maior pelos antigos do que pelos de alta tecnologia e modernos. Andar entre as fileiras desses aviões em Oshkosh e Sun’n Fun sempre foi minha atividade preferida nessas feiras.

Texto por: Luiz Guilherme Richieri
Fotos por: Ricardo Beccari

Infelizmente, o Brasil não tem a mesma cultura de preservação. A maioria dos aviões dessa época não sobreviveram. Só me restava admirar, para não dizer “babar” mesmo,  nas feiras nos Estados Unidos.

Aos poucos as coisas foram mudando, começamos a restaurar os poucos exemplares que nos restavam e algumas aves raras começaram novamente a migração para o sul. O avião que voei a semana passada, foi um desses, um Beechcraft D17S Staggerwing de 1944, conhecido ao Brasil como “Beech Mono”, importado no passado recente e trasladado ao Brasil pelo meu grande amigo e companheiro para o voo de hoje, Carlos Edo (vejam mais histórias na “Coluna do Edo”).

É indescritível a sensação de prazer que vem acompanhada ao se voar uma dessas máquinas… a imponência do avião no solo, com seu enorme motor radial apontando para cima por conta do trem de pouso convencional, o aroma do cockpit, mistura do cheiro do couro do luxuoso estofamento aliado ao cheiro de Avgas e óleo do motor…cheiro de avião de verdade mesmo!

Subindo a bordo, abro a robusta porta do Staggerwing e percebo que a Beech usou muitos conceitos de design dos carros de luxo da época, como os Packards e Dusenbergs. Esta máquina não é um avião. É uma limousine que voa. E como voa!

Subo na asa, passo pela porta, e tenho que me curvar um pouco para a frente para entrar na área do largo banco traseiro, que acomoda confortavelmente três pessoas. Aí passo entre os dois bancos da frente e me instalo no fantástico assento do piloto. Volto a 1944 e começo a desfrutar de um dos mais luxuosos cockpits jamais produzidos.

O capot é bem alto à minha frente mas por ser redondo, a visibilidade não chega a ser ruim, a não ser para a direita.  E se eu quiser enxergar melhor para a frente, posso baixar o vidro lateral (de vidro mesmo) com uma maçaneta tipo de carro e colocar a cabeça para fora. E fazer curvas em “S”! Agora… qualquer coisa do lado direito fica totalmente invisível e é preciso um “S” bem acentuado para poder enxergar. O centro da taxiway e da pista são visíveis fazendo-se um “S” mais suave.

Para os amantes da aviação, não existe melhor som do que o da partida de um motor radial. Nesse caso, é o legendário Pratt and Whitney R-985 de 450 hp. Viro algumas pás de hélice no starter e ligo o magneto esquerdo. O motor tosse à medida que os cilindros vão acordando e nos envolve em tufos de fumaça que saem dos escapamentos, queimando óleo residual dos cilindros de baixo.

Ao alinhar com a pista, travo a bequilha e lentamente levo a manete até o batente. Ficamos imersos numa sinfonia maravilhosa produzida pelos 450 cavalos radiais! O avião vagarosamente ganha velocidade e sai do chão de maneira solida, bem de acordo com sua personalidade de limousine!

Recolho o trem de pouso, o que leva um tempo razoável. Sim, este é um biplano de trem retrátil! O trem é recolhido por um motor elétrico e um sistema de correntes e engrenagens. Quando abaixo o nariz para nivelar para voo de cruzeiro, o mundo reaparece e o ponteiro do velocímetro vai se movendo na direção dos dígitos que fizeram esse avião parecer mágico nos anos 30. Duzentas  milhas por hora, na época, era como se fosse Mach 1 dos dias de hoje.

Quando a guerra acabou e a Beech lançou o esbelto e rápido Bonanza, seria lógico assumir que a era dos biplanos tinha acabado. Mas não foi o caso. Um segmento de mercado ainda exigia o luxo dos biplanos. O Staggerwing continuou mais alguns anos, agora na forma do G-17S, que era um pouco mais esguio ainda que os anteriores. O para-brisa e o capot foram redesenhados para que fluíssem numa linha única. Todos os Staggerwing são belíssimos e são  considerados por muitos uma obra de arte, como se tivessem sido desenhados por Michelangelo ou Da Vinci!

Retornamos a Jundiaí, para algumas passagens para fotos, avidamente esperadas por nosso amigo Beccari e com a ajuda e coordenação da torre de controle local. O avião é tão bonito e chama tanto a atenção que até recebemos elogios da controladora!

Terminadas as fotos, temos que pousar, infelizmente. Entro mais uma vez na perna do vento, trem em baixo, flaps, que estão nas asas de baixo, hélice no passo mínimo. Entro na final e pergunto ao Carlos Edo, a meu lado: e agora? A resposta clássica é “tá contigo”! E é verdade! O Staggerwing, como a maior parte dos Bonanzas, só tem um manche, que pode ser transferido de um lado para o outro. Faço um pouso de pista e mantenho a cauda alta até mais próximo da taxiway onde livramos a pista para o hangar. Sinto um certo alívio no semblante do Edo quando o pouso acaba e chegamos ao pátio! Afinal de contas, esse avião é uma jóiarara, impecável, verdadeiramente o “Clássico dos Clássicos”!!

 

 

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