O Isolado, esse desconhecido…

Há muito e muito tempo, lá pelos idos dos anos 50, quando o nosso Braga, ainda tenente novo, voava o B-25 lá pelo nordeste, eu era o piloto isolado...

Há muito e muito tempo, lá pelos idos dos anos 50, quando o nosso Braga, ainda tenente novo, voava o B-25 lá pelo nordeste, eu era o piloto isolado da Esquadrilha da Fumaça. Além de ser instrutor de voo de estágio avançado e chefiar a Sala de Tráfego eu, ainda por cima, aguentava os setores de Relações Públicas da Escola da Aeronáutica e da Esquadrilha.

Sem tempo para respirar ou treinar sobrou para mim o isolado. A nobre função do isolado era de ficar entretendo o público até que os quatro aviões estivessem novamente prontos a iniciar a próxima manobra.

E se não estivessem prontos… tome improvisação e rasante.

A improvisação pelo isolado era aceita e compreendida. Maior público ou quórum alto motivavam parafusos mais enroscados e mais baixos, loopings emendados, de chão a chão, voos invertidos com motor rateando e rasantes que necessitam o levantamento de uma asa para ultrapassar os obstáculos…

Com o ronco do Rei Leão, um T-6, mesmo sozinho, já botava para arrepiar meio mundo. O que dizer daquele rasante a quase 400 quilômetros, com a manete a pleno e o passo da hélice empurrado para o mínimo ao cruzar o povaréu distraído?

Era uma ducha de adrenalina pra ninguém botar defeito.

Graças a isso, muitas vezes o isolado recebia após o pouso maiores atenções do público do que os próprios colegas da Esquadrilha. O que o deixava bastante embaraçado, pois não havia a menor dúvida de que os quatro do diamante eram os que mais se arriscavam, mais suavam a camisa e deles, unicamente deles, dependia o sucesso e a beleza do show.

Tive a oportunidade de conversar com os isolados de diferentes esquadrilhas estrangeiras. A situação é idêntica. As gozações, principalmente por parte do pessoal da Esquadrilha, aquela turminha do super bonder, não deixavam nenhum isolado sossegado.

Com retaliação e no mesmo espirito de gozação, dizíamos que eles voavam sempre bem juntinhos porque tinham medo de fazer acrobacias sozinhos; que acendiam os faróis porque eram ceguetas e voavam baixinho porque tinham medo de altura…

Não vamos, entretanto, ter uma falsa impressão. O voo do isolado não é fácil. Eles se acidentam mais que os da própria Esquadrilha. Além dos seus voos serem realizados quase sempre dentro dos limites mínimos como o lomcevack e o tounneau com trem e flaps baixados, o isolado – talvez por estar voando mais perto do público e sem a responsabilidade dos alas – recebe com mais calor as emoções da plateia, incentivando-o a cutucar um pouco mais os apertados limites.

Talvez por essa razão, as esquadrilhas militares e civis, como o próprio Circo Aéreo Ônix, com bastante lucidez, fazem um rodizio entre os seus componentes: alas, isolado e narrador.

Na minha época, uma das funções  do isolado/Relações Públicas era a de fazer a precursora nas diferentes cidades que solicitavam a presença da Fumaça. Com um T-6 sem horizonte, giro, rádio-compasso e um rádio que mal conseguia falar com a torre, lá ia este seu amigo pelos brasis afora. Ciscando, seguindo estradas de ferro e utilizando cartas rodoviárias ultrapassadas, conseguimos, depois de muita luta, descobrir a tal cidadezinha no interior do Mato Grosso.

E que só era confirmada como a cidade certa, após falarmos com o guarda campo, quando havia…

Bons tempos!…

Hoje, o isolado, deixando de ser apenas uma cortina para os intervalos da Esquadrilha, conquistou o seu merecido espaço. Com as suas ousadas manobras, ele passa a ser também o espetáculo, ajudando a colocar a nossa Esquadrilha da Fumaça como uma das mais respeitadas internacionalmente, trazendo aquele orgulho gostoso para todos nós.

Texto por Jose Fernando Portugal Motta

 

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