O Rabino e a Pluma

Junho de 1992. O Rio de Janeiro era o local escolhido para abrigar a maior reunião de chefes de Estado...
O Rabino e a Pluma

Por: Ruy Marra

Junho de 1992. O Rio de Janeiro era o local escolhido para abrigar a maior reunião de chefes de Estado — 108, para ser preciso —, juntamente com líderes religiosos e espirituais de todas as partes do planeta. Também estariam representadas aproximadamente 6.800 ONGs de 177 países.

Fui consultado, por telefone, para um vôo duplo que faria com um desses líderes espirituais que viria ao Rio participar da ECO 92. O passageiro em questão era o rabino Zalman Schachter.

Foi seu discípulo, o rabino Nilton Bonder, quem me deu uma breve aula sobre Renewal Judish, um movimento de renovação judaica do qual eram seguidores, sendo Zalman um dos líderes. Mais extensas, porém, foram as suas recomendações quanto à segurança de seu mestre. O rabino Bonder questionou cada detalhe e, reiteradas vezes,  lembrou-me de sua preocupação de que absolutamente nada acontecesse.

Como de praxe, procurei tranqüilizá-lo, afinal, já contava com quase mil vôos duplos de total sucesso,  desde que abrira mão da carreira de advogado especializado em propriedade intelectual havia alguns anos. E era com tal experiência que poderia lhe dar a certeza de que seu mestre estaria em segurança para voar.

Marcamos, então, o ponto de encontro e o horário: rampa da Pedra Bonita, 11 horas da manhã.

Era um começo de dia nublado e com vento normal para decolagem, e eu estava feliz por dividir mais uma aventura aérea, até que avistei o rabino Bonder e o futuro voador.

Minhas mãos começaram a suar. Esqueceram um detalhe. Um importante detalhe. De longe pude mensurar que meu futuro passageiro aparentava ter um peso muito acima do que eu estava habituado a levar em minha asa.

Tecnicamente eu sabia serem perfeitas as condições de aparelhagem e tempo, mas sabia, também, que a mobilidade e o peso do passageiro são requisitos fundamentais de segurança para carimbar o passaporte na rampa da Pedra Bonita.

Veja bem: somente a asa pesa cerca de 35 quilos; a velocidade final necessária para a decolagem é de 19 km/h, atingidos em oito metros de distância, numa pista debruçada a 520 metros sobre a Mata Atlântica, com vista para o mar em linha paralela à praia de São Conrado, uma das mais belas do Rio. Resumindo, caso o rabino não corresse para atingir a tal velocidade necessária, a asa-delta poderia aproximar-se perigosamente das árvores logo abaixo da pista, o que significaria um esforço muito maior para evitar, inclusive, um choque ou uma queda.

Em minha mente então ressoavam as questões do rabino Bonder sobre segurança, e eu já ensaiava uma forma de cancelar aqueles vôos, até que fui apresentado ao rabino Zalman.  Uma onda de tranqüilidade, amor e paz afastou tal idéia. Apesar do corpo obeso — provavelmente 100 quilos —, sua docilidade e assertividade no olhar me convenceram. Naquele instante soube que poderíamos voar. E com absoluta segurança.

A fim de confirmar a possibilidade de cada voo, sempre faço com meus passageiros um ensaio da corrida que precede a decolagem. Desta forma, é possível ajustar movimentos,  precisar a intensidade dos mesmos e passar, para cada um dos passageiros, informações a serem utilizadas no momento adequado.

Percebi que esta era mais uma das minhas provas de fogo. Precisava achar o jeito certo para decolar com este diferencial, pois, caso o rabino não conseguisse acompanhar a corrida, eu teria que me responsabilizar, sozinho, pelo meu peso, o da asa e mais os cerca de 100 quilos dele.

Foi então que propus uma parceria e não sei dizer, ainda hoje, de onde tirei tal idéia, mas sei que fiz o pedido inspirado pela espiritualidade, transcendência e outras qualidades pertinentes a um homem divino.

— Rab Zalman — disse olhando nos olhos dele —, por favor, pense em algo bem leve.

— Sim, Ruy.  Pensarei — afirmou serenamente.

Após essa confirmação, fizemos a checagem final dos engates. Tanto os meus, quanto os dele estavam bem ajustados. Levantei a asa mirando as ilhas no horizonte. 

Contei pausadamente até três e disse:

— Vamos!

A asa entrou em voo sem perder um metro sequer.  Embora intrigado, percebia que as árvores abaixo me pareciam mais distantes e que tocávamos o céu de São Conrado de forma gentil, como se o vento fosse um grande conhecido de Zalman.  Pela desenvoltura, reconheci que nossa asa parecia carregar um passageiro de, no máximo, 60 quilos.

Ele provavelmente percebeu a experiência ímpar que vivenciava comigo, pois perguntou-me, após algumas curvas de extrema leveza sobre a Floresta Atlântica:

— Ruy, posso abençoá-lo?

Naquele momento, em que já me sentia abençoado e feliz pela realização plena do vôo, respondi prontamente que sim.

Sobrevoando o mar, preparei-o para o pouso, realizado, enfim, com a mesma perfeição do vôo. No fim dos procedimentos de desengate, não me contive de curiosidade quanto ao que ele pensara na decolagem, já que a sensação de leveza que experimentamos no ar  fora incrivelmente intensa.

Ele apenas respondeu:

— Pensei que eu fosse uma pluma.

Estas palavras ecoaram em minha cabeça até eu chegar à área de desmontagem — um descampado entre a areia e a Associação de Voo Livre, ao lado do início do calçadão da praia do Pepino —, quando meu pensamento foi interrompido por um chamado:

— Você é o Ruy?

Quem perguntava parecia um monge, pois vestia uma longa túnica laranja.

— Sim, sou eu mesmo.

— Estava lhe procurando porque gostaria de fazer um vôo.

— Ótimo, estou livre agora. Qual é o seu nome?

— Pode me chamar de Dada.

 Dada — maneira carinhosa de se referir a um monge da tradição tântrica na Índia — disse que encontrou meu nome no guia Lonely Planet, e assim, me procurou.

 Subimos para a rampa e, sempre com um semblante muito tranquilo, trabalhou a respiração, prestou muita atenção nos movimentos, nos ensaios, nas práticas. Realizamos, enfim, mais um voo perfeito naquele dia privilegiado e de altíssima espiritualidade para mim.

 Somente quando já estávamos no ar é que não resisti e perguntei o que o levara a querer voar. Dada explicou que morava na Índia, em uma aldeia de onde só se saía atravessando alguma ponte. Certa vez, ele foi procurado por uma mãe aflita, cuja filha era tomada pelo medo a cada vez que precisava passar por uma das pontes.

 A mãe pedia que o monge explicasse à menina que tal medo não tinha razão de ser.  Para tanto, ele sentiu que precisaria entender a realidade da jovem antes de dar a ela uma explicação convincente. Dada, então, decidiu enfrentar um medo próprio: voar de asa-delta. Antes, estudou a fisiologia do medo e do estresse e como ambos se refletem em nossas vidas. Comigo, experimentou na prática como era enfrentá-los. Em seguida me disse:

 “— Passaram-se exatamente três meses desde que fui procurado pela mãe da menina. Mas somente agora estou preparado para conversar com ela.”

 Só então pude constatar: o que aquele monge levou três meses para descobrir, eu necessitei de 27 anos.

Nossas emoções, aliadas aos pensamentos, quando equilibrados e direcionados, são capazes de nos preparar mental, espiritual e fisicamente para qualquer aventura, projeto ou sonho, respeitando o Sagrado.

Se considerarmos a decolagem da rampa como um novo evento em nossa vida — seja ele um novo emprego, relacionamento, empreendimento ou mudança de ciclo — poderemos enxergar de que  forma encaramos cada um de nossos desafios.

Durante todos esses anos de prática do voo livre, pude observar que algumas pessoas reagem melhor do que outras aos desafios. E, mesmo aos poucos, num tempo bem maior do que o do monge, pude entender quais fatores fazem de alguns vôos uma verdadeira decolagem para a felicidade.

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Esportes Aéreos
2 Comentários sobre este post.
  • oprol evorter
    21 junho 2019 at 23:22

    Utterly indited content material, Really enjoyed studying.

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