O sonho de Ettore Bugatti

Pai dos notáveis carros esporte e de corrida, o talentoso projetista italiano construiu também o incrível avião Bugatti-100R para desafiar as forças armadas de Hitler....
Bugatti-100R - Ilustração

Pai dos notáveis carros esporte e de corrida, o talentoso projetista italiano construiu também o incrível avião Bugatti-100R para desafiar as forças armadas de Hitler.

Matéria por Fernando Almeida

Julho de 1996. O museu do EAA em Oshkosh (EUA) recebe sua mais notável aquisição, o incrível Bugatti-100R, que mesmo sem os dois motores originais e a célula necessitando de muita recuperação, provoca mais oh! E ah! Do que todas as outras raridades expostas no museu. Voltando ainda mais no tempo: Junho de 1940, um grupo de apressados franceses retira de uma fabrica de moveis, situada num prédio próximo ao Arco do Triunfo, em Paris, o Bugatti voador – quase pronto para o seu primeiro voo!

Ilustração do uso do Flape – Bugatti-100R – por Mauro José de Godoy Moreira

Destino da maquina de sonhos: o porão de uma casa de campo na França, a salvo da Wehrmacht alemã que invadia o país. E o que teria sido o provável recordista mundial de velocidade para aviões a hélice, além de possível precursor de uma linhagem de caças interceptadores – os Bugatti-100P – sobrevive hoje apenas como símbolo da engenhosidade humana, coberto de patentes e fonte de uma grande interrogação: teria dado certo o sonho de Etorre Bugatti?

Etorre Bugatti, verdadeiro artista da mecânica intuitiva era filho de um escultor/pintor/arquiteto milanês. Herdou do pai o talento artístico, o gosto pela perfeição e precisão nos detalhes. Aos 18 anos, projetou e construiu um caro revolucionário para a época, e encantou a comunidade automobilística na Feira de Milão em 1914 com suas soluções criativas, tendo se transferido para a firma francesa Lorraine-Dietrich como engenheiro-chefe. Suas soluções mecânicas dependiam mais da inspiração do que das formulas e cálculos: de uma olhada, ele definia forma e dimensão de componentes complexos, deixando surpresos os engenheiros que calculavam posteriormente esses componentes e concluíam que não havia necessidade de se alterar nada.

No inicio da Primeira Grande Guerra, Bugatti projetou sob encomenda um motor aeronáutico de oito cilindros em linha, com quatro válvulas por cilindro e comando único do cabeçote, 250 HP a 2.160 rpm. Dois desses motores, acoplados lado a lado num mesmo carter, deram origem ao famoso “King Bugatti” H-16 fabricado sob licença pela fábrica Duesemberg americana (5 mil unidades), motor este que veio a equipar tanques de guerra dos aliados. Depois da Primeira Guerra, Ettore Bugatti estabeleceu-se em Molsheim, na França (Alsácia), adotando a nacionalidade francesa e passou a fabricar os personalíssimos carros de corrida e esporte Bugatti, com a grade do radiador em forma de ferradura – sua marca registrada.

Seus motores refletiam a tecnologia desenvolvida para os motores de oito cilindros aeronáuticos: baixo peso, alta performance e robustez, o sonho dos engenheiros (e o desespero dos mecânicos!). A incontestável hegemonia dos carros Bugatti Grand Prix  e Sport nos anos 20, entretanto, começou a ser desafiada pelos bólidos alemães da Mercedes e Auto Union a partir dos anos 30, criando a crescente rivalidade França x Alemanha nas pistas de corrida. Bugatti decidiu desafiar a orgulhosa Alemanha de Hitler também nos ares, e teve então inicio em 1935 o fantástico programa modelo “100R” – um avião de corrida único, bem no estilo Bugatti.

O Bugatti Alado

Etorre Bugatti contratou um talentoso engenheiro aeronáutico francês, Louis D. de Monge, encarregando-o da célula do avião destinado a competir na então famosa corrida “Coupe Deustch de La Meurthe” de 1938, a ser realizada na Alemanha. O motor seria derivado do modelo “50” um 4,9 1 que equipava os carros Bugatti vencedores dos grande-prêmios de Avus e Mônaco. Designado “50B”, era um oito cilindros em linha de 4,7 1 de cilindrada, bloco de magnésio integral com cabeçote, duplo comando e quatro válvulas por cilindro compressor Roots em liga leve.

Desenvolvia 450HP a 4.500 rpm. Esse motor seria montado atrás do piloto, ligado a uma caixa de redução e hélice no nariz por um eixo de transmissão, estilo Bell P-39 Airacobra. A cédula de um design aerodinâmico revolucionário seria construída com uma espécie de “composite” balsa/spruce/contraplacado, não empregando materiais estratégicos (ligas de alumínio, aço). Mudanças de planos, primeiramente com a adoção de um segundo motor “50B” em tandem, visando a um “racer” mais ambicioso. E em seguida outra guinada, ditada pela guerra iminente: o promissor “racer” Bugatti-100R, agora bimotor, daria segundo as autoridades aeronáuticas francesas um excelente caça leve, como já planejavam fazer com os famosos “racers” de madeira Caudron “Rafale”.

Ilustração do Bugatti-100R em voo – por Mauro José de Godoy Moreira

A “solução Bugatti” compreendia não só os dois motores ”50B”, mas hélices coaxiais contra-rotativas, dando a possibilidade da montagem de um canhão atirando por dentro do eixo vazado. A França precisava desesperadamente de caças de primeira linha, pois o que havia em seu inventário já era ultrapassado e o prestigio gaulês estava em jogo… Nascia assim nas pranchetas o “Bugatti-100P”, cujo contrato ficaria na dependência de um feito inédito: a derrubada do recorde mundial de velocidade absoluta para aeronaves, então de posse dos italianos desde 1934 com o hidroavião Macchi – Castoldi MC-72 (440, 68 mph). E uma versão “100R” do caça Bugatti, capaz de chegar nas 500 mph, deveria ser constituída de imediato.

O resto é historia: em 30 de março de  1939, Hans Dieterle conquistava para a Alemanha o recorde mundial de velocidade num Heinkel He-100V (463,82 mph), e logo em seguida- em 26/4/39 – Ftitz Wedel estabelecia novo recorde num Messerschmidt Me-209R (469,22 mph). E o pior: a Alemanha invadia a França, acabando de vez com o sonho de Ettori Bugatti.

O Bugatti “100R” foi localizado quase intacto em 1970 por um colecionador de carros americano, que adquiriu a maquina para aproveitar os dois raros motores “50B”. a célula foi posteriormente doada ao Museu da Força Aérea em Dayton, e agora pertence ao Museu da EAA em Oshkosh. O Bugatti “100R” será restaurado com o capricho sem par dos artesãos da EAA, e logo poderá ser visitado e admirado por filas de fanáticos da aviação no museu de Oshkosh. Com toda a certeza, o primeiro da fila a ser de Burt Rutan”

O Bugatti-100R por dentro

Asas: estrutura de madeira, com duas longarinas formando caixa de torção passante na fuselagem. Perfil formado por balsa revestida com contraplacado. Recoberto com tela de linho/dope. Sistema único de flapes auto-ajustaveis do tipo “split”, bipartidos: seis posições possíveis, monitoradas por sensores de velocidade e de pressão na admissão, comandando automaticamente as combinações de deflexão por sofisticado mecanismo de varetas tubulares, bieletas e guinhóis. Trem retrátil na asa.

Fuselagem: estrutura primaria interna em madeira, com seção poligonal, recoberta com uma camada de balsa de espessura variável, que da uma forma fluída e continua desde a ponta do nariz até a empenagem em “Y”. Essa camada de balsa esculpida é então coberta com tiras de madeira laminada, e revestida com tela e dope. O resultado parece uma escultura futurista, belíssima e em grande harmonia com as asas levemente enflexadas para a frente e com empenagem revolucionária. A deriva ventral incorpora o leme de direção e a bequilha retrátil do trem de pouso.

Bugatti-100R – Ilustração – por Mauro José de Godoy Moreira

Propulsão: os dois motores de oito cilindros em linha, um à frente e o outros atrás da caixa de torção passante da asa, ficam inclinados cada um para um lado e acionam dois eixos de transmissão, que passam de cada lado do piloto. Esses eixos acionam uma caixa de redução com dupla entrada no nariz, de onde saem dois eixos concêntricos para a movimentação das hélices bi-pás Ratier contra-rotativas. O passo das hélices é ajustável no solo. O sistema de arrefecimento dos motores inclui tomadas de ar no bordo de ataques dos estabilizadores em “V”. Esse ar pressurizado é coletado numa câmara, seguindo daí em fluxo reverso para um grande radiador, via duto de seção crescente. Após a troca de calor no radiador, o ar aquecido é “sugado” por ranhuras numa zona de baixa pressão, no bordo de fuga junto à raiz das asas. A velocidade máxima calculada para essa maquina de sonho : 500 – 550 mph, com “apenas” 900 HP de dois motores Bugatti 50B. Fascinante!

 

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História & Clássicos
3 Comentários sobre este post.
  • Lizenir Lara de Andrade Carniel
    3 agosto 2018 at 16:14

    Existem filmes dessa maravilha em voo?

  • caebalvedi
    7 agosto 2018 at 19:50
  • BotLike
    23 setembro 2019 at 19:27

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