Sensação supersônica

Junto com meu amigo e ala Albrecht, fui a Canoas. Ele, para rever os velhos amigos do “Pampa” (nome pelo qual é conhecido o 1º/14º) e captar dados para...

Junto com meu amigo e ala Albrecht, fui a Canoas. Ele, para rever os velhos amigos do “Pampa” (nome pelo qual é conhecido o 1º/14º) e captar dados para uma matéria, e eu para fotografar e viver uma sensação muito especial. Como as melhores imagens do esquadrão são as dos pilotos em ação, fui viver estas emoções a bordo do F-5F nº 07 comandado pelo tenente-coronel-aviador Silva Lobo.

F-5 – Foto de Laert Gouvêa

Durante nossa equipagem, ao fazermos o briefing, acertamos que nosso voo teria três etapas. A primeira seria a de apresentação, quando faríamos algumas manobras para que eu conhecesse o avião. A segunda seria uma corrida supersônica, que era o que me deixava mais ansioso. E por ultimo uma interceptação de outras aeronaves para a sessão de fotografias.

Nós nos amarramos na cadeira Northrop, que apesar de não ser da mais modernas (era o mesmo modelo usado no primeiro F-5 que voou em 11 de agosto de 1972), equipa um cockpit bastante convidativo. Após alguns minutos de adaptação ao painel, o tenente-coronel Silva Lobo acionou o 07 e iniciamos o táxi. Nessa hora, acho que meu coração bateu mais forte do que o ruído das turbojets General Electric J85 de 5 mil libras de empuxo cada uma.

Na “posição dois”, fizemos uma rápida parada em um cheque final e para a extensão de bequilha. É isso ai: antes da decolagem, os F-5 estendem o amortecedor da bequilha a fim de aumentar o ângulo de ataque em três graus, o que economiza 300 metros de pista. Completamos o cheque, alinhamos na “posição três” e iniciamos a corrida. A “colada na cadeira” na hora dos “freios fora” eu já havia experimentado em alguns jatinhos executivos, mas o “empurrão extra” após a ação dos afterburners (pós-queimadores) foi uma agradável surpresa e predizia o que estava por vir.

Com aproximadamente 160kt, o tenente-coronel Silva Lobo convidou a aeronave a voar, ela prontamente atendeu e se pôs a voar rente a pista, recebendo logo em seguida o comando de “trem em cima” e uma aliviada de manche para se manter em rasante sobre a pista enquanto acelerava rapidamente. Após cruzarmos a cabeceira oposta, já estávamos atingindo quase os inacreditáveis 500kt, o que nos possibilitou uma puxada de 5G subindo na vertical até os 20 mil pés em um único minuto. Nessa hora, me veio um grande medo, um pavor horrível de que nada mais que eu voasse na vida teria a mínima graça.

Seguimos a 24 mil pés na proa do litoral, aproveitei para ir fazendo seguidos tourneaux e conhecendo as rações da máquina. Era como uma mulher maravilhosa, que quanto mais se a conhecia mais a gente se apaixona. Seus “tourneaux de alierons” faziam os “tourneaux rápidos” dos Christen Eagle parecerem uma eternidade. O looping puxando só uns três G eram feitos num raio aproximado de 12 mil pés, apertando um pouco mais dava para fazer em até sete mil pés. Usando flap de manobras era possível apertar a máquina sedutora ainda mais. Cheguei a fazer looping em quatro mil pés de raio.

Como uma boa amante, quanto mais eu a apertava mais ela tremia (anunciava o estol de alta velocidade e fazia a manobra pendurada no motor),  como se estivesse em êxtase e me acariciava ainda mais (o macacão anti-G contraia e aliviava conforme a intensidade da força da gravidade).

Minha fantasia erótica com aquelas linhas esguias de excelente performance foi quebrada pela voz do Silva Lobo me convidando a sair de cima do continente para nossa esperada corrida supersônica. Para manter a integridade dos vidros das casas do litoral gaúcho, seria melhor que nos afastássemos mar adentro. A 36 mil pés, aceleramos e atingimos a velocidade do som, com o nosso 07 resistindo por alguns segundos até romper a barreira (acho que é por isso que leva esse nome). Em seguida, como se estivesse ensaboado, o avião então acelera rapidamente para Mach 1.6.

Aeronave em manobra – Foto: Laert Gouvêa

Lá dentro não muda nada, exceto a sensação de se tornar super-homem ao se voar a uma velocidade destas. No retorno ao continente agora em velocidade subsônica e aguardando a interceptação dos nossos aviões-modelos para as fotos, pude observar o que significa voar supersônico. Havíamos em poucos minutos percorrido uma distancia absurda em relação ao nosso ponto de referência, o continente.

A última parte de nosso voo foi sobre as praias e dunas fotografando nossos alas. Em seguida, fizemos algumas passagens sobre a Base Aérea de Canoas (RS), entramos no trafego feito a 220kt, giramos base para final a 180kt, cruzamos a cabeceira a 160kt e tocamos suave, com uma freada curta com o auxílio do paraquedas.

Esse voo no “Pampa” foi inesquecível, eu havia acabado de conhecer uma nova dimensão da arte de voar. Mais tarde voltei a quebrar a barreira do som a bordo de um Mirage 2.000, mas nada superou a emoção da minha primeira vez.

 

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Um Comentário
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    3 novembro 2019 at 13:20

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