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O Beechcraft Bonanza, um dos maiores sucessos da aviação geral, chega a impressionantes 71 anos ainda em produção contínua. Acredite que em uma área de alta tecnologia como a aviação, onde a mudança é constante e as inovações não param, uma família de aeronave vem sendo produzida, inovada, renovada e é sucesso de vendas por 71 anos! Isso ocorre porque desde seu lançamento, esta revolucionária família de aeronaves quebra paradigmas, e atinge em cheio a missão para a qual foi desenhada: transportar de 4 a 6 pessoas, em absoluta segurança, econômica e rapidamente. Estamos falando é claro da família Beechcraft Bonanza.

Matéria por Hermann Pais

Bonanza Beech D-35 – fabricado em 1953

A história começa em Wichita, Kansas, no meio (geográfica e literalmente) dos Estados Unidos em 1924, quando Walter Beech, Lloyd Stearman e Clyde Cessna fundaram a Travel Air Manufacturing Company, dedicada a construir aeronaves para o transporte de passageiros e não somente malas postais. Após anos de sucesso e lançando novos produtos, incorporando até outra pioneira, a Curtiss-Wright Corporation, fundada pelo Orville Wright (o próprio), Beech, Stearman e Cessna não conseguiam entrar em acordo sobre o desenho de sua nova aeronave: Beech acreditava que a aeronave do futuro teria uma asa abaixo da fuselagem. Cessna acreditava na asa alta, e Stearman em duas asas em configuração de biplano. Em 1932, Walter decidiu então sair da Travel Air e fundar sua própria empresa a Beech Aircraft Company. Stearman ficou com o prédio original e continuou a fabricar seus bi-planos, mais tarde associando-se a William Boeing. E Clyde Cessna mudou-se para uma fazenda mais ao sul e foi fazer os seus asas altas. O resto é História e pode ser visitada nos vários museus de aviação em Wichita, ou qualquer aeroporto do mundo.

Duas aeronaves Bonanza – Foto por Hermann Pais

Beech contratou Ralph Harmon, um engenheiro brilhante para líder do desenho de uma aeronave completamente revolucionária, usando técnicas de construção igual à dos caças da Segunda Guerra: inteiramente em alumínio, monocoque, aerodinamicamente limpo, com motor de 6 cilindros horizontalmente opostos, trem de pouso retrátil triciclo, e asa baixa. Para diminuir ainda mais o arrasto, Ralph decidiu por usar uma cauda em V que faz as vezes de leme e profundor (ruddervator em inglês). Enquanto as primeiras 30-40 unidades usavam flaps e ailerons entelados, identificou-se o magnésio, material ultra-leve e exótico à época como um substituto que reduziria ainda mais o peso. E assim nasceu o mais icônico, identificável, distinto avião jamais produzido, o Bonanza cauda em V.

O primeiro Modelo 35, tomos os céus em 22 de Dezembro de 1945. O modelo 35 original tinha 165 HP, 4 assentos, ailerons e flaps entelados, instrumentos que hoje seriam precários.

Bonanza D9412 – fabricado em 1972

Após 1500 unidades vendidas, em 1949 iniciou-se a produção do A-35, suportando maior peso de decolagem e 701 unidades vendidas. Em 1950 o B-35 ganhou um novo motor Continental e vendeu 480 unidades. Entre 1951-52 veio o C-35, com hélice de metal, área maior da cauda em V, maior peso de decolagem e um motor Lycoming alternativo – 719 foram vendidos. O D-35 veio em 1953  com 298 aeronaves. Com 301 unidades a série E-35 ganhou um motor de 225 HP em 1954. Juscelino ganhou as eleições presidenciais em 1955 quando o F-35 ganhou uma 3ª janela lateral e vendeu 392 aviões, e em 1956 o G-35 vendeu 476. O H-35 evoluiu com o novo motor Continental O-470 de 240 HP, reforço na estrutura e 464 novos proprietários. Motor injetado veio para o J-35 em 1958, que tinha também piloto automático, um novo painel e 396 aeronaves. O K-35 ganhou um 5º assento no bagageiro, mais combustível, peso de decolagem e 436 foram construídos. A década de 1960 iniciou-se com o M-35, com pontas de asa curvas e 400 unidades. Um novo motor Continental IO-470-N dispondo de 260 HP inaugurou o N-35, que também tinha a 4ª janela lateral em forma de gota, bomba auxiliar elétrica, 2 tanques auxiliares de 20 galões e vendeu 280 unidades. A inovação continuou com o P-35 em 1962, com 476 unidades, lançando o painel de instrumentos em T – que se tornou a norma na aviação geral, até os painéis digitais da Garmin e Avidyne no anos 2000. O S-35 foi lançado em 1964, com o novo motor IO-520-B de 285 HP, maior peso de decolagem, cabine maior, 5º e 6º assentos opcionais, e mais uma janela – vendeu 667 unidades. Quando eu nasci em 1966 a Beech lançou o V-35: para brisa único, turbo opcional (V-35 TC), que vendeu 873 máquinas.

Em 1968, a Jovem Guarda foi recebida pelo V35A, com 470 unidades. Por fim, o último modelo dos cauda em V foi o V35B, fabricado de 1970-1982, com 873 unidades.

Bonanza P-35 – fabricado em 1962

Paralelamente, em 1959, a Beechcraft desenvolveu um modelo com cauda com profundor e leme convencional, o 35-33 Debonair. Ele era considerado um modelo de baixo custo, com acabamento em tecido e painel bem inferior ao K-35 da época. O 35-33 tinha o mesmo motor Continental IO-470 de 224 HP, e teve 233 unidades. A evolução continuou em 1961 com o A-33 (154 unidades), em 1962 com o B-33 – 426 unidades, em 1965 com o C-33 (305 unidades), 1966 C-33A (179 unidades), E-33 e E-33A em 1968 (116 e 85 unidades). Neste ano, o E-33A passou a ter o mesmo padrão de acabamento e motor do V-35A, e a partir daí a única diferença entre os dois passou a ser a cauda. O E-33B veio com reforço estrutural para suportar manobras acrobáticas, o E-33C em 1968 com 25 construídos, o F-33 em 1970 com 20 unidades. 1970 trouxe o tricampeonato de futebol no Brasil e o F-33 e F-33A com 20 e 821 unidades, e mesma fuselagem do V-35. Neste ano o F-33C, com 118 unidades também era certificado para acrobacias. O último G-33 foi feito em 1973  com 50 unidades e a mesma fuselagem, motor e acabamento do V-35B.

O Bonanza que você compra novo de fábrica em 2018 é o modelo 36, que começou a ser feito em 1968, a partir do alongamento da cabine do E-33A em 25 cm e a adição de uma 4ª janela e porta dupla, seis assentos e o motor Continental IO-520 B com 285 HP. 184 foram construídos entre 1968-1969. De 1970 a 2005 reinou absoluto o modelo A-36, com 2128 unidades.

Nesse período tivemos em 1984, a parada da fabricação de quase todas as aeronaves da aviação geral por causa das leis de Responsabilidade de Produto sobre os fabricantes. A Cessna suspendeu a fabricação de aeronaves de 1986 a 1994. A Piper faliu e parou de fabricar aeronaves. A Beechcraft foi vendida para a Raytheon, mas foi a única das três a manter a produção de aeronaves a pistão para a Aviação Geral, suspendendo a fabricação do modelo V-35B e focando-se no A-36.

Bonanza em tons de cinza – Foto por Hermann Pais

O A36 teve duas variantes, o A36TC de 1979 a 1981, com hélice tripá e motor turbo Continental TSIO-520-UB, 280 construídos. Em 1982 veio o B36TC, com asa de maior envergadura, alcance de mais de mil milhas e 116 unidades construídas ao longo de 10 anos. Em 2006 veio o modelo atual o G36, cuja característica marcante é o painel Garmin G1000.

O G36 fabricado em 2018, tem 300 HP, 6 assentos, espaço interior cavernoso, acabamento de fazer inveja a qualquer veículo de luxo, ar condicionado, a última geração de painel Garmin G1000 NXi e custa  $850,000.

Ao total, 10.194 Bonanza cauda em V foram produzidos, 2.355 modelos 33, e 2709 modelos A36 – B36. Com mais de 70 anos de sucesso contínuo, o Bonanza continua a ser o sonho de consumo de muitos aviadores.

Postscript:

Atualmente Beechcraft e Cessna pertencem à mesma empresa: Textron Aviation. Cessna e Beechcraft, foram criadas e permaneceram vizinhas em Wichita. Gerações de famílias trabalharam para estes dois fabricantes, e a rivalidade entre as duas é similar a Palmeiras x Corinthians, Flamengo x Fluminense, ou Athlético x Cruzeiro. A Garmin fica ali perto também, em Olathe, Kansas. A Boeing Stearman continua a fabricar aeronaves militares (caças) e as fuselagens e asas dos 737 em Wichita. O outro grande fabricante de aeronaves da cidade é a Learjet, que inventou o jato executivo em 1963. Wichita é um tema para o futuro…

Fotos por Hermann Pais e Ricardo Beccari

 

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